Orionlog

archives


Domingo, Outubro 24, 2004

 
A Princesa e O Plebeu



Vencedor de 3 Oscar dos 10 a que foi indicado, melhor atriz para Audrey Hepburn, melhor figurino e melhor roteiro, A Princesa e o Plebeu é definitivamente uma das maiores obras de William Wyler. com um ritmo mais do que inteligente, o filme se baseia na relação amorosa entre dois personagens diametralmente opostos, uma princesa ingênua, rica e doce [Audrey Hepburn, espetacular] e um jornalista pobre e oportunista [Gregory Peck, ótimo]. porém, a relação de ambos se baseia em mentiras aleatórias que mascaram suas verdadeiras condições sociais e representações para a sociedade; ela se diz aluna de um colégio e ele um engenheiro químico. Ambos se protegem em identidades falsas para auto preservação e para a construção de um relacionamento virtualmente impossível.

Acima de tudo, o filme é extremamente divertido. Filmado inteiramente em Roma, a obra de wyler mostra diversos pontos da capital italiana, numa visão romântica e dinâmica da mesma. Cansada da vida regrada e monótona, Ann, que está prestes a dar sucessão ao trono de seu país, foge de seu palácio e encontra Joe Bradley, um jornalista sem um tostão no bolso que ao descobrir a identidade de sua convidada, resolve realizar desejos aparentemente banais da moça, como tomar café na rua, dançar durante a noite ou colocar a mão em uma pedra que diz verdades. Ao mesmo tempo, este pretende escrever uma matéria revelando todos os desejos e anseios de uma figura tão publica e importante para a geopolítica de seu continente.

Acima de tudo trata-se de uma comédia muito bem conduzida por wyler, que sabe como ninguém dosar o humor em seus filmes. Em o galante aventureiro, ele fez um filme aparentemente cheio de testosterona render boas risadas, por exemplo. os clichês comumente explorados em filmes de amor/comédia não são do feitio de wyler, que se utiliza de muita criatividade para a criação dos elementos complicadores ou condutores da trama.

a princesa e o plebeu é engraçadíssimo, muito leve e divertido, com um ótimo roteiro e uma dupla de protagonistas unidas com tanta naturalidade, otimizando a trama. a belga audrey hepburn, lindíssima, prova mais uma vez que foi uma das maiores atrizes de Hollywood [como em um clarão nas trevas e bonequinha de luxo] e gregory peck, morto ano passado só traz a interação perfeita à narrativa. O desfecho final é igualmente espetacular.

A Princesa e O Plebeu está em cartaz no Telecine Classic.

Roman Holiday, EUA 1953, William Wyler
posted by FELIPE LEAL 7:40 PM


Sexta-feira, Outubro 22, 2004

 
O Grande Golpe



Com apenas 13 mil dólares o então estreante na direção, Stanley Kubrick filmou Fear And Desire, filme não lançado no Brasil, onde acumulou as funções de diretor, roteirista, operador e produtor, porém Kubrick considera que a sua carreira começou definitivamente apenas em seu segundo filme, renegando ou negligenciando a sua primeira obra e considerando seu verdadeiro debut apenas com A Morte Passou Por Perto, de 1955. Após entrar em contato com o produtor James B. Harris, com que fundaria uma produtora, Kubrick filmou O Grande Golpe, filme que viria mais tarde a ser a principal inspiração de Tarantino para a realização de Cães de Alguel. A parceria Harris-Kubrick, ainda realizou Glória Feita de Sangue e Lolita.

O Grande Golpe é em si um filme extremamente inventivo e inusitado, mostrando que desde cedo, Kubrick já estava à frente de seu tempo. Pautado em um ótimo roteiro não-linear e não condizente com os padrões da época, o filme foi bastante criticado em seu lançamento. Um de seus maiores trunfos é uma narrativa que mostra os pontos de vista de diversos personagens em diferentes situações quando uma mesma ação catalizadora ocorre, coisa presente em Jackie Brown ou em Elefante, por exemplo.

Quando Johnny Clay [Sterling Hayden] sai da prisão, este organiza um golpe que visava o roubo de 2 milhões de dólares de um grande prêmio de turfe. Este organiza um grupo de criminosos que visava realizar um plano espetacular, que incluía matar o cavalo líder das apostas com um rifle de alta precisão. O que ocorre é que Sherry Peatty [Marie Windsor] uma mulher de personalidade extremamente doentia, cujo único foco de atenção era o monetário trama um ato secundário, pretendendo roubar o dinheiro da quadrilha, cujo marido faz parte.

Um dos elementos mais importantes para a realização do filme foi a presença de Sterling Hayden, pois Kubrick procurava um ator de já certo nome e fama, Hayden já havia feito um bom número de trabalhos e sido protagonista no faroeste feminista de Nicholas Ray, Johnny Guitar. Porém quem rouba praticamente todas as cenas é Marie Windsor numa atuação contida e ao mesmo tempo altamente manipulativa e explosiva.

Apesar de tão comentado e da comparação iminente com a obra de Taratino, o roteiro de O Grande Golpe se focaliza na trama em detrimento da maior parte de seus personagens. Kubrick prefere mostrar apenas facetas das personalidades dos envolvidos na trama, um estereótipo invariavelmente fixo de ação dos mesmos, o que vem a limitar de certa forma o ritmo da narrativa e a criar conceitos pré-estabelecidos sobre os mesmos personagens. Já Tarantino faz o contrário, ele se focaliza no conflito moral e psicológico entre os personagens de sua trama e vai revelando detalhes e traços de suas complexas personalidades aos poucos, onde respaldados por pseudônimos, os personagens são definitivamente misteriosos e bilaterais.

O filme se apóia também em uma iluminação quase impecável, deixando além de tudo, um clima de filme noir à obra. Pode-se ver que Kubrick já demonstrava suas características que o colocam como um dos mais influentes cineastas de todos os tempos. Neste filme ele já ensaiava algumas longas tomadas, uma fotografia interessante e seus planos simétricos, balançeados e diametralmente harmoniosos para o espectador.

A importância de O Grande Golpe para a carreira do diretor é flagrante e várias das características deste filme poderam ser vistas em Glória Feita de Sangue, seu filme seguinte. Com um roteiro interessante, apesar de preferir não apelar a personagens mais esféricos e se concentrar na trama basicamente, a obra de Kubrick é das mais aclamadas dentre os filmes que retratam crimes espetaculares e um clima de suspense constante.

The Killing, EUA 2004, Stanley Kubrick
posted by FELIPE LEAL 11:07 PM


Quinta-feira, Outubro 21, 2004

 
Os Pássaros



Depois de ler o conto apocalíptico de Daphne Du Maurier e de ter filmado sua obra prima de terror psicológico, Psicose, Alfred Hitchcock quis filmar Os Pássaros. Ele se interessou por Tippi Hedren após vê-la em um comercial de refrigerante diet e mandou contata-la para testes de elenco. Esta interpretou algumas das personagens de Hitchcock ao lado de Martin Balsam, atuando como as personagens de Rebbeca ou Ladrão de Casaca, por exemplo. A todo o momento Hitchcock, atrás das câmeras, dava as coordenadas de como Hedren deveria se comportar diante das mesmas, mas o clima era de total descontração entre os atores e o diretor.

O filme não aparenta inicialmente dar espaço a uma obra de terror, pois o ritmo é de uma comédia descompromissada, ingênua, onde Melanie Daniels [Tippi Hedren em excelente atuação], a filha de um ricaço em São Francisco, conhece o advogado Mitch Brenner [Rod Taylor] numa loja de pássaros e resolve ir até Bodega Bay, uma cidadezinha no interior, levando dois periquitos [ove birds] em uma surpresa. Porém, alguns estranhos incidentes com pássaros, gaivotas e corvos, começam a ocorrer. A narrativa ganha um contraponto interessante a partir de o momento em que Melanie conhece a mãe de Mitch, Lydia [interpretada pela brilhante Jéssica Tandy], onde o foco das atenções quanto aos pássaros muda para uma relação estática e sufocante entre os três. A figura da personagem de Lydia é de uma mulher muito problemática, insegura e ciumenta. Com a morte de seu marido, agora uma figura na parede, esta passa a superproteger Mitch e a sua filha menor, Cathy [Verônica Carthwright], mas Hitchcock brilhantemente foca suas atenções sobre a relação da mãe e do filho, onde uma suspeita de uma relação incestuosa platônica por parte da mãe se insinua. Esta passaria a substituir a figura do marido falecido pelo filho adulto e a repelir qualquer contato que este teria com outras mulheres. Ingenuamente, é verdade, mas a partir da professora de Cathy, Annie Hayworth [Suzanne Pleshette] isto fica mais claro. Pois esta teve uma relação com Mitch e somente após o término da mesma para que Lydia passasse a aceitar a moça como uma amiga, uma comum.

Desde então, Hitchcock faz o contraponto narrativo ligando os pássaros, figuras da destruição e morte com a relação no 'triângulo amoroso', não necessariamente de caráter sexual, entre mãe-filho-namorada, onde esta última estaria para os pássaros assim como a calmaria para a relação anteriormente estabelecida naquela família. Isto é muito implícito, e é uma interpretação pessoal para o que foi passado no filme, mas Hitchcock realmente não nos dá muitos subsídios para uma interpretação mais ampla da que foi proposta, o que mostra de certa forma que Os Pássaros é um filme um tanto raso, que poderia ter sido certamente mais bem desenvolvido quanto a este plano específico da narrativa, tão o mais importante que o ataque dos pássaros em si. Hitchcock não pretendeu ser nenhum Bergman ali, mas a suspeita não enquadrada ou pouco desenvolvida que incomoda um pouco, sem prejudicar a narrativa de modo estrito.

A direção do mestre do suspense é o ponto dos mais importantes no filme. E esta é simplesmente espetacular. Mesmo em planos abertos, como na perseguição da escola, Hitchcock consegue focar sua câmera sobre determinados personagens e criar uma situação altamente claustrofobia e doentia. Mas, como se trata de um filme de suspense/terror, este prefere inteligentemente os planos fechados, e os faz com decisiva maestria. A cena em que Melanie está em uma cabine telefônica e gaivotas enfurecidas começam a se jogar contra o vidro, quebrando-o, é sensacional. Hitchcock em planos de cima da cabine girando a câmera ao redor de Tippi Hedren, coisa que já foi muita bem feita na cena do chuveiro de Psicose. O mesmo serve para as mais diversas cenas em automóveis fechados ou na seqüência final, fantástica, no casarão de Lydia. As dimensões particulares de ação restritas a um ambiente fixo que Hitchcock faz são realmente admiráveis. Muito se diz que M. Night Shyamalan seria um sucessor de Hitchcock, principalmente pelo feito em Sinais. Se Shyamalan tem algo de Hitchcock quanto ao quesito suspense, ele copiou de Os Pássaros, primordialmente. Todas as cenas em que a família do pastor é atacada pelos extraterrestres é idêntica a esta de Os Pássaros, onde a família fica reclusa em uma casa, portas e janelas cobertas por madeiras, sem comunicação e com iluminação precária, apenas uma lareira e uma lanterna. Claro que o apelo dos personagens de Hitchcock potencializa definitivamente as cenas de suspense que o diretor cria e a iluminação adequada cria o terror. O que dizer da seqüência em que Lydia vai na casa do fazendeiro da região? Ou ainda, da cena em que Melanie se recolhe com a mesma?

Interessante notar que Os Pássaros não tem trilha sonora. O filme não tem uma música sequer, apenas o barulho dos pássaros e os gritos dos habitantes de Bodega Bay, se é para pintar um quadro desesperador do que foi mostrado na produção. É realmente fabuloso ver todo o suspense que um diretor consegue criar sem o uso de trilha sonora, apenas em silêncio total ou com uns poucos sons. O apuro técnico da obra é também outro ganho positivo, pois mostrar centenas de pássaros em movimento conjunto não seria algo muito fácil para 1963.

As imagens de Os Pássaros são definitivamente pesadas. Quem teria a coragem de colocar centenas de corvos sanguinários atacando crianças e furando suas cabeças com os bicos? O filme é perturbador mais por determinadas imagens do que pela sensação de suspeita, como ocorre em certos filmes de suspense. O filme é baseado em imagens e expressões, primordialmente; e num movimento de câmera, interessante. O final de Os Pássaros seria com a Golden Gate Bridge completamente coberta por centenas de milhares de pássaros, mas os custos foram muito elevados, e isto acabou não sendo feito.

O que me decepcionou um pouco foi o final do filme, mas Os Pássaros é uma peça formidável de um excelente diretor, baseado em uma trama inicialmente fraca [pássaros assassinos, uh?], mas que ganha contornos sufocantes e claustrofóbicos ao longo em que o ritmo da narrativa cresce e um mal nunca antes visto em tais proporções se revela tão mortal para raça humana.

The Birds, EUA 1963, Alfred Hitchcock
posted by FELIPE LEAL 11:02 PM


Quarta-feira, Outubro 20, 2004

 
Isso aqui vai virar um log. Now.


posted by FELIPE LEAL 10:55 PM


This page is powered by Blogger. Isn't yours?