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Quarta-feira, Agosto 17, 2005


Man Ray e o Cinema

Man Ray realizou um cinema experimental, surrealista, nos idos das décadas de 20 e 30, como seus contemporâneos Luis Buñuel [Um Cão Andaluz; A Idade do Ouro]; Paul Wegener [O Golem, de 1915], Robert Wiene [O Gabinete do Dr. Caligari, de 1920] e Murnau [Nosferatu, 1922]. Além de membros da vanguarda cinematográfica francesa da década de 20 como Marcel Duchamp, que inclusive trabalhou com Man Ray em projetos fotográficos, exposições artísticas e em filmes. Tal período também foi o do florescimento dos filmes do chamado expressionismo alemão que tem em Fritz Lang e Murnau seus maiores contribuidores.

Vale lembrar que um filme ou produção artística só tem validade ou análise adequada, se inserido em seu período histórico. Tal período histórico é o do pós-primeira guerra mundial, onde o mundo passava por uma situação de sentimento de perda, estarrecimento e medo. Os membros que criaram um momento anti-artístico eram da chamada ¿geração perdida¿, ausente e descrente dos rumos que o mundo havia tomado. Tal movimento é o Dadaísmo, originado em Zurique, surge como um movimento artístico ou anti-artístico [como seus membros definiam] nos Estados Unidos e na Europa em conseqüência ou influenciado pelos fatos que se sucedem. Foi fundamentalmente um movimento pelo qual os artistas do período expressavam seus sentimentos com relação ao mundo no pós-guerra. O mesmo inclui idéias de desconstruitivismo, irracionalidade deliberada, , negação de estéticas, interpretação de que qualquer objeto poderia ser arte, pela própria negação da mesma e também com os ataques à arte clássica e harmônica que vinha sendo explorada anteriormente, aos padrões já pré-estabelecidos da mesma. O dadaísmo foi uma das bases para a arte contemporânea e do pensamento moderno e tinha fundamentação também política, visto que também se utilizava de críticas e ironias à política internacional do seu período. Este foi criado no período em que surgia a ¿avant-garde¿, ou um movimento transgressor francês.

Man Ray além de fotógrafo, também foi cineasta. Seus 3 filmes mais conhecidos são:

O Retorno à Razão [Retour à la raison, Le (Estados Unidos, 1923)]
Emak Bakia [Idem (Paris, 1926)]
A Estrela do Mar [L¿Etoile de mer (Paris, 1928)]

Além destes, Man Ray fez mais 10 curtas entre 1923 e 1940.

Man Ray fez seu primeiro filme "Le Retour à La Raison" (1923) em um só dia. O título se refere a um retorno a razão mas, paradoxalmente, o filme revela-se inteiramente sem razão. Utilizando-se de radiogramas, quadros feitos por objetos colocados diretamente sobre a película, como alfinetes e botões, o filme projetava efeitos metálicos na tela. O corpo nu de uma mulher foi um dos únicos elementos concretos do filme, que continha cenas comuns em um contexto incomum. Esta foi uma obra dadaísta, tanto pelos elementos utilizados quanto pelos seus resultados, uma vez que causou uma reação violenta na platéia sendo interrompida a projeção após três minutos.

Em Emak Bakia [título em basco que significa ¿deixe-me em paz¿], curta de 20 minutos, Man Ray promove uma total non-sense artística, quebrando violentamente com os padrões estabelecidos do cinema convencional. Este se utiliza de imagens surrealistas e de elementos do dadaísmo nas cenas onde filma relógios voando, borrões dançantes, ondas de listras, etc. É interessante observar que o uso da música aqui é muito consciente e inteligente. Cada movimento dos elementos do filme é acompanhado milimetricamente por uma trilha sonora que varia de algo como um jazz [que surgia neste período também] ou de uma valsa neo-clássica. Observa-se que esta dicotomia na escolha dos elementos musicais também revela certo caráter irônico nas obras do realizador. A utilização de metonímias com partes do corpo humano, além de com objetos denota esta desfragmentação do período vivenciado pelo autor. Em determinada cena, em que uma mulher vem dirigindo um carro, Man Ray promove um corte abrupto e insere porcos na tela. Depois filma pés e pernas. A utilização do rosto feminino como elemento idiomático e enigmático se faz observar também. Na última cena do filme, a atriz [Kiki de Montparnasse , com quem Man Ray viria a realizar alguns projetos] tem em suas pálpebras um olho desenhado e ao abri-las, seu olho verdadeiro aparece. Em termos técnicos, o filme tem um ótimo continuísmo, a iluminação é extremamente competente, além do constante uso de focos, sombras e close-ups que Man Ray viria a utilizar neste e em seus outros filmes. Durante o filme, duas frases são citadas, enchendo a tela: ¿porque eu sou a mágica¿ e ¿a razão para a extravagância¿. Segundo um relato da época, durante a exibição de Emak Bakia, um homem levantou e gritou que o filme estava lhe dando dor de cabeça. Um outro se levantou, enfurecido e mandou que o primeiro se calasse, então começaram a brigar até que a polícia chegasse no local. O filme foi primeiro apresentado num festival dadaísta que Tristan Tzara estava organizando e constava que haveria um filme dadaísta de Man Ray, então este resolveu realiza-lo para o mesmo.

L¿Etoile de mer é um curta de 17 minutos baseado num poema de Robert Desnos, vindo 2 anos depois de Emak Bakia. Neste filme observamos elementos já utilizados no anterior, como os closes metonímicos, seja em pés, olhos ou pernas, retratando a já mencionada desfragmentação, as frases de impacto que Man Ray se utiliza durante as imagens: ¿dentes das mulheres são objeto de charme¿; ¿sempre perdidos num deserto escuro¿, que aparecem durante a exibição das imagens, notadamente fragmentárias, dinâmicas e irracionais. Barcos, espectros e flores que viram vidro também são elementos retratador pelo autor no texto. ¿A beleza da mulher é como uma flor de vidro¿, diz Man Ray durante as cenas de seu curta. ¿Como é linda uma estrela do mar, compara-se com a mulher mortal¿. A figura da ¿estrela do mar¿ é muito retratada neste filme, seja como representante da beleza feminina, ou seja como concorrente da mesma, já que em uma das cenas, uma mulher tenta mata-la com uma faca afiada. É fundamentalmente um filme sobre a beleza, e o enfoque aqui é muito mais surrealista que dadaísta, mas mesmo assim, o sentido empregue aqui pode eventualmente não ser o correto, pois tal interpretação é variável e nem sempre condizente com a do autor.

Posion [1933, Paris. 3 minutos] é um curta mais irônico e brincalhão, mas que não deixa de ser reflexivo, porém já se afastando um pouco da temática dos dois primeiros. Aqui tem-se um homem, fumante, que passa através da tela ¿ elemento surrealista ¿ um cigarro a uma mulher, que tosse. Depois este bebe um copo de whisky e acaba morrendo. Observam-se realidades opostas, e a dor da morte, relacionada com o pânico da mesma.

¿I¿d like to see something in a film I have never seen before, something that I don¿t understand¿
¿ Film and photography, the latest and hence the youngest of the arts, are primitive, compared with painting, which has thousands of years¿ history behind it. Nothing has been done yet.¿
Man Ray

Isto de certa forma revela as intenções do autor com seus filmes, não revelar nenhum significado fixo, idéia base e informando que o cinema e a fotografia ainda tinha muito a mostrar, comparado com a pintura, por exemplo.

Tecnicamente, os filmes se realizavam a partir da projeção direta dos negativos [a chamada técnica de cameraless, que hoje em dia ainda se utiliza para animações que não necessitam de efeitos especiais], que geravam as imagens cinematográficas. Eram pequenas partes de filmes, de negativos, que eram expostos à luz e geravam então as imagens, os fotogramas. Tal técnica foi utilizada em seu primeiro filme, Le Retour a la Raison, de 1923.

Já em Emak Bakia, observa-se um grande avanço técnico do modo das filmagens de Man Ray. Aqui já se filmou com os objetos sobre os negativos e expostos à luz, então se projetam na tela as sombras dos mesmos, dando suporte ao caráter ¿dançante¿, ¿volátil¿ e ¿onírico¿ de seus filmes. Seu cinema visual, expansivo e tecnicamente bem elaborado eram avançados a sua época, e a partir daí, sua influência se deu em outras produções subseqüentes.


Bibliografia:

The Internet Movie Database [IMDB]. Disponível em: http://www.imdb.com/ . Acesso em: 9 e 10 de julho 2005.
Wikipedia. Disponível em: http://www.wikipedia.org/; Acesso em 9 de Julho de 2005.
J. Paul Getty Museum, Los Angeles ¿ California em http://www.getty.edu/museum/about.html. Acesso em 10 de Julho de 2005.


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